sábado, 3 de julho de 2010

Painting flowers



Não sabia onde eu estava. A única coisa que eu tinha certeza, era de que estava perdida. Caminhei lentamente pela calçada feita de tijolos que parecia ter sido colocada magicamente entre as árvores densas. O meu vestido, comprido ao ponto de arrastar até o chão, não parecia me aquecer o suficiente, por isso a brisa fresca me deixava arrepiada. Olhei para o vestido que eu trajava: todo branco, com alguns detalhes em prata, parecia ter saído de algum conto de fadas. Porém, diferentemente de qualquer conto de fadas, eu tampouco era uma princesa. Não estava feliz, estava à beira das lágrimas. Mas não era o fato de estar perdida que me incomodava. O que me desolou, foi o fato de eu não ter a menor idéia de como havia chegado ali e como suprir o vazio que apertava meu peito e marejava meus olhos. Não havia subterfúgio.
Deixei me levar pela brisa fresca e fui em direção aos raios de sol. Eles me guiaram até o lugar mais lindo que eu já havia estado. Muitas flores. Todas rosas brancas, que me inebriaram com seu perfume estonteante. Me senti hipnotizada e, logo, não quis mais sair dali. Queria ficar perdida para sempre naquele lugar mágico. Não queria mais voltar para minha realidade.
Ouvi vozes inteligíveis sobre o meu ombro, mas não havia ninguém. Segurei uma das rosas na mão, era como se eu tivesse nas mãos uma alma; porém, não consegui ver aquele campo de rosas tão vazio, tão abstrato. Olhei para o chão e, atirado sobre a terra, havia um pincel e algumas tintas. Hesitei, mas acabei abrindo a tinta vermelha e seu cheiro forte chegou rapidamente até mim. Delicadamente, mergulhei a ponta do pincel na tinta. Após este primeiro movimento, parecia que eu sabia exatamente o que deveria fazer. Segurei a rosa com cuidado, enquanto a pintava com a tinta vermelha. Logo, ela estava completamente tingida. Fiz o mesmo com as outras, com cores diferentes. Quando terminei de pintar a última, a tinta acabou. Era como se houvesse quantidade suficiente somente para aquelas rosas. Sorri, observando o campo colorido.
Puxei para mim a última rosa a qual pintara. Observei-a de perto e atravessei o campo com ela na mão direita. Vaguei para longe do campo. Havia muitas árvores no caminho a qual eu passava, mas a calçada não terminava. Comecei a ficar agoniada com o caminho que nunca tinha fim. Corri desesperada, com a rosa na mão e o vestido arrastando desconfortavelmente. Cai aos prantos, pois o vazio que eu sentia ainda não havia ido embora. Desorientada, tropecei sobre um galho que invadia a calçada. O baque forte fez com que a rosa rolasse para longe e minha mão começasse a sangrar, por ter me apoiado sobre ela, evitando uma queda maior. Assustada, passei a mão sobre o vestido, notando somente depois que o vestido havia ficado tingido de sangue. Levantei depressa, sobressaltada com o rumo que as coisas haviam tomado. Há alguns minutos, eu estava totalmente feliz pintando flores. Agora me sentia completamente perdida. Eu estava cansada de tudo isso. Como voltar a ser o que eu era? Como voltar para a realidade?
Corri para o lado oposto, deixando a rosa tingida para trás. Continuei correndo até ultrapassar todas as rosas que, agora, eram coloridas. Não quis continuar com aquele vestido de princesa. Aquela não era eu. Queria voltar a ser quem eu sempre fui. Fechei os olhos, implorando para tudo voltar ao normal. Porém, quando voltei a abri-los nada havia mudado. Somente senti um volume maior por baixo do vestido branco. Despi o vestido e, agora, por baixo dele estava vestida com as minhas roupas normais. Definitivamente, eu não era mais uma princesa. Os colares de pérolas que usava se desmancharam sozinhos, só pude ouvir o barulho das pérolas tilintando pela calçada de pedra. A pequena coroa que jazia sobre meu cabelo caiu ao chão, quebrando em diversos pedaços.
Qualquer garota se sentiria triste por deixar de ser uma princesa. Eu, pelo contrário, abri um sorriso reluzente. Agora eu era eu mesma, sem máscaras e disfarces. Continuei correndo pelo caminho oposto ao que estava antes, sabendo que logo estaria em casa, levando um sorriso confiante.
Acordei arfando, me sentindo cansada e assustada. Eu estava deitada sobre a minha cama, acordando de um sonho incrível. Senti algo em minha mão e quando olhei para ela, lá estava a flor do meu sonho, tingida de vermelho. Sorri involuntariamente.


Diferentemente do que eu costumava postar, hoje publiquei um dos meus contos aqui. Ele é baseado na música Painting Flowers do All Time Low, que é trilha do filme Alice in Wonderland. Embora não tenha muito a ver com a história, essa música me inspirou pra escrever esse conto. Se pararmos pra pensar, as situações desse conto não são muito diferentes do que as que costumamos viver. Obviamente, não ficamos perdidas em um lugar mágico trajando um vestido de princesa, mas por vezes nos sentimos presos dentro da nossa própria realidade, desejando estar dentro de um conto de fadas onde as coisas costumam ser mais fáceis. Também não saímos por aí pintando flores. Mas podemos deixar o mundo colorido de outras maneiras. Poderemos cair e sangrar, mas o importante é levantar e seguir adiante. O ideal seria que esse "pintar flores" metafórico não se fizesse presente apenas nos sonhos. Você não precisa viver em um conto de fadas para transformar o mundo em um lugar mais bonito.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Do you know the love?




Lamento informar-lhes que quem escreve hoje aqui não é a Ana. Achei que seria justo eu roubar a cena, exatamente como faço com o seu coração e sanidade. Você provavelmente já deve saber com quem está falando. Meu nome é Amor. Não gosto no que transformaram o meu nome. Parece que não posso nem me apresentar sem dar ares de clichê a quem sou. Converteram minha existência para remeter a um bilhão de coisas. Sei que quando você escuta a palavra “Amor”, sua cabeça vaga para filmes de romance ou situações que você viveu ou adoraria viver. O problema mesmo é que quase todos os meus verbos ficam no subjuntivo. Eu mesmo sou uma dúvida pronta. Erra quem diz que sou a razão de tudo. Não sou a razão, não sou início nem fim. Sou a interrogação, sou o meio que te leva a cometer as mais alucinantes loucuras, coisas que você jamais faria se eu não tivesse lhe domado. Desculpe minha presunção, mas sim: eu tenho poder de te controlar. Sou capaz de te fazer ver tudo por outro ponto de vista.
Outra das minhas capacidades é fazer você ter a impressão de que tudo é o fim do mundo, quando na verdade, não passa de uma pedrinha brita no meio de um rochedo. Humildemente, queria te pedir desculpas por todas as vezes que posso te fazer chorar. Lembrando que nem sempre chorar é apenas verter lágrimas... Quantas vezes podemos sentir nossa alma chorando e tentar ignorar a dor e o aperto no peito? Porém, sinto que estamos quites. Por todas as vezes que lhe fiz sorrir. Um sorriso bobo, em sua maioria. Daqueles que valem a pena e são dignos de cinema. Claro que nem o melhor ator do mundo saberia interpretar fielmente o brilho no olhar de quem me sente por perto. Você deve saber... Quase todo mundo pelo menos uma vez na vida já sentiu isso.
Quer saber um segredo meu? Costumo ser teimoso. Infiltro-me na alma que mais veementemente procura dizer que nunca amará nada nem ninguém. E vice-versa. Quando me chamam demais, saio de perto. Gosto de ser uma figura inesperada. Você provavelmente me encontrará aonde menos imagina.
Costumo ser insistente também. Faço você esquecer todo o resto do mundo para só lembrar-se de mim. Não quero exclusividade. Apenas sinto o desejo de ser vivenciado. Não gosto quando me trancam no mais obscuro porão da alma. E se você soubesse, caro leitor, o número exagerado de pessoas que fazem isso...
Termino essa pequena invasão com uma frase dos Beatles “All you need is Love.” Sempre gostei que as músicas falassem por mim. Acho que elas sabem expressar bem quem eu sou. Talvez até melhor que eu mesmo. Porque sei que palavras são insignificantes perto do que ocorre quando escolho minhas vítimas. Se você conseguir escutar a batida da música, entendê-la e senti-la, quem sabe também poderá escutar a batida do próprio coração.

sábado, 1 de maio de 2010

Cold, snow and rain



Amo dias chuvosos. Gosto de ver a chuva batendo calmamente contra a janela, as gotas dançando calmamente pelas vidraças até sumirem do meu campo de visão. Gosto de embaçar o vidro com a minha respiração. Gosto de desenhar com a ponta dos dedos no vidro embaçado. Diferente da maioria das pessoas, não costumo escrever meu nome no vidro. Faço desenhos que me remetem a dias ensolarados. Um sol. Uma flor. Rabiscos sem sentido. Um coração. Pedaços de vida. O que é a vida? Bom, ela é um rabisco. Alguns capricham no seu rabisco e o transformam em uma obra de arte. Outros, deixam o rabisco intocável. Esquecem de configurá-lo de acordo com o que lhes deixa feliz. Traços de uma vida. Rabiscos, apenas.
Amo dias frios. Eles são a desculpa perfeita para abraçar o maior número possível de pessoas. O frio aproxima. O frio aquece. Pode parecer contraditório, mas é isso mesmo. O corpo pode estar gelado, mas o coração está aquecido. E é isso que importa, enfim. Filme, cobertor, chocolate quente, abraços que aquecem.
Só não podemos esquecer de uma coisa: não deixe seu espírito congelar como as plantas cobertas pelo orvalho: mantenha-o aquecido. Assim como o seu coração. Pode ter certeza que desse jeito, você não passará frio nesse inverno. Aproveite a chuva e os dias gelados, enquanto deixa seu coração na mais ensolarada praia que tiver em mente. Capriche no rabisco da sua vida. Vale a pena.

domingo, 18 de abril de 2010

About the past




Você já olhou para suas próprias fotos e não se reconheceu? Já teve a sensação de que aquela pessoa sorridente não era você? Que aqueles momentos estão tão distantes, que você tem a impressão de que nunca foram vividos?
Não deixe as fotos envelhecerem. Fotografe novas e diferentes. Ouse. Não repita os mesmos erros. Só deixando o passado para trás que você encontrará quem você é hoje. Afinal, se aquele momento passou é porque deveria ter passado. Não o traga de volta lamentando o que você fez ou deveria ter feito. Construa o seu próprio amanhã.
Porque, afinal, agora percebo que sou eu em todas essas fotos. Cada marca que está ali. É a mesma pessoa de ontem, hoje e amanhã. Será?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

I don’t wanna waste my time


Tudo que eu não quero é ver a minha vida passar sem antes eu ter realizado meus sonhos. Não quero apenas “ter existido”. Queria que depois que tudo acabasse, as pessoas lembrassem-se de mim como alguém que marcou. Alguém que acrescentou algo ao mundo. Alguém que mudou uma trajetória, um caminho. Não quero perder meu tempo. Sinto a necessidade de transformar, mudar, alterar.
Não quero ter a certeza de que fui arrastada pelo fantasma do conformismo. Quero mudança. Elas, inicialmente, assustam. Eu sei. Mas são necessárias. A vida perde a graça quando cai na rotina.
Não me conformo em ser apenas mais uma pessoa no mundo. Não quero me perder entre os bilhões que já pisaram neste mesmo solo. Quero mudança. Quero um mundo mais colorido. Chega de preto e branco.
Quero a vida com mais cor.
Quero construir meu próprio arco íris.
Alguém aí tem tinta e pincel?


A música que deu título a essa postagem é Fat Lip - Sum 41.

quarta-feira, 3 de março de 2010

I need a dream


Já fui justamente chamada de sonhadora. As pessoas costumam dizer que eu sempre espero demais das oportunidades, do dia-a-dia e das pessoas. Obviamente, frequentemente essa busca é inútil. Na maioria das vezes, acabo me decepcionando. Porém, podem me chamar de boba ou o que for: eu gosto de ser assim. Gosto de acreditar que algo diferente e bom irá acontecer e que isto me tirará da rotina. Enfim, gosto de sonhar.
Que graça teria a vida, se nos sujeitarmos com tudo que nos é imposto e esquecermos de nossos desejos e ambições? Não quero ver a minha existência passar diante dos meus olhos como um meteoro que me cega e não me deixa mais ver a luz dos meus sonhos e vontades.
Sinceramente? Podem até dizer que eu vivo em um mundo que não existe - o mundo das ilusões - mas diante disto, eu afirmo: tentarei o máximo possível para que essas ilusões se transformem em realidade.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Fiction



A vida real é complicada. Seria tão mais fácil viver dentro de uma novela ou de um filme, onde quase sempre temos a garantia de um final feliz. A protagonista da ficção sempre é completamente boa, justa e sem nenhum sinal de maldade. Há também a vilã, que é o completo oposto e que apresenta um caráter questionável, sem compaixão ou bondade. Bom, e quem são os protagonistas da vida real? São uma junção dessas duas personalidades. Ninguém é só bem ou só mal. A realidade vai muito além disso.
Dificilmente na vida real, haverá alguém que nos deteste como os vilãos de filmes. Também dificilmente poderemos descobrir depois de anos que somos adotados ou que temos super-poderes. Mas quem disse que, apesar de isso não acontecer, a vida real é tão fácil? A vida real é muito mais cruel. Não tem um vilão nos perseguindo e querendo a nossa morte, mas temos que aprender a lidar com os pequenos problemas do dia-a-dia. E estes, são por vezes muito piores do que qualquer vilão. Dificuldade é ter os sonhos destruídos, ver que há gente morrendo de fome, ver crianças nas ruas, ver adolescentes rebeldes vendendo mobília da própria casa para comprar drogas. Dificuldade é ver o mundo tremendo diante de abalos naturais, pessoas morrendo com os terremotos, tsunamis, tornados e tempestades arrasadoras. Dificuldade é ver bebês sendo abandonados em sacos de lixo, é ver a esperança acabar, é ver o brilho sumir dos olhos. Isso é dificuldade.
Ou quem sabe a vida real seja fácil mesmo. Nós é que complicamos.